Euribor

Euribor sobe em julho de 2026 e trava a corrida ao crédito habitação em Portugal

O Banco Central Europeu voltou a subir as taxas em junho, depois de dois anos de descidas. Veja o que isso significa para a prestação da casa e que taxa escolher agora.

Euribor sobe em julho de 2026 e trava a corrida ao crédito habitação em Portugal

No dia 23 de julho, o Banco Central Europeu decidiu não mexer nas taxas diretoras — mas a Euribor a 12 meses subiu mesmo assim, para o valor mais alto desde outubro de 2024. Quem tem um crédito habitação indexado à Euribor a seis meses já viu isso refletido na prestação deste mês: mais cinco euros do que quem contratou o empréstimo em junho. Parece pouco, mas é o primeiro sinal de uma travagem que vinha a acontecer há dois anos e que agora inverteu de direção.

A boa notícia é que a subida não apanhou os bancos de surpresa: as simulações que os comparadores de crédito publicam todas as semanas já mostram como isto se traduz, euro a euro, na sua prestação — e onde ainda há margem para negociar.

A Euribor voltou a subir depois de dois anos de descidas

Entre junho de 2024 e o início de 2026, o Banco Central Europeu cortou as taxas diretoras oito vezes seguidas, um ciclo que aliviou sucessivamente as prestações de quem tinha crédito habitação com taxa variável. Essa tendência parecia consolidada até à reunião de 12 de junho de 2026, quando o BCE subiu as taxas em 0,25 pontos percentuais — a primeira subida desde setembro de 2023. A decisão surpreendeu parte do mercado, habituado a uma pausa longa de sete reuniões sem alterações, e empurrou a Euribor a seis meses para perto de 2,6% já nesse mês. Em 23 de julho, com o contexto geopolítico cada vez mais tenso, o BCE optou pela cautela e manteve as taxas diretoras inalteradas. Mesmo assim, o fracasso das negociações entre os Estados Unidos e o Irão e a escalada de tensão no Médio Oriente empurraram a Euribor a 12 meses para 2,912%, o valor mais alto desde outubro de 2024. Nesta data, a Euribor a três meses estava em 2,456% e a Euribor a seis meses em 2,690% — precisamente o indexante usado em oito em cada dez novos créditos habitação com taxa variável ou mista contratados em Portugal.

Quanto vai pagar a mais na prestação da casa

Se tem um crédito indexado à Euribor a seis meses, já sentiu isto na conta bancária deste mês.

Segundo as simulações mais recentes, quem contratou um crédito habitação indexado a este indexante paga agora cerca de 681 euros por mês, mais cinco euros do que quem tinha fechado o contrato em junho — uma diferença pequena, mas que se soma a cada revisão trimestral caso a Euribor continue a subir. E os analistas dos comparadores de crédito já simulam o próximo cenário: se a Euribor a seis meses avançar para 2,90% na próxima revisão, a prestação de quem contrata agora sobe cerca de 25 euros por mês face a um crédito assinado em julho. Não é um valor que desequilibre o orçamento de um casal com dois salários médios, mas para quem já vive com a prestação da casa a ocupar mais de 35% do rendimento — o limite que os bancos costumam recusar ultrapassar num novo crédito — cada subida destas aperta a margem que resta para imprevistos.

Taxa fixa, variável ou mista: qual escolher agora

Melhor opção para quem vai contratar crédito habitação nos próximos meses: a taxa mista, com um período inicial fixo entre cinco e dez anos. Este tipo de contrato protege o orçamento exatamente durante a fase em que os analistas preveem novas subidas da Euribor — até ao final de 2026 — e ainda permite beneficiar de eventuais descidas a partir de 2027, quando o mercado espera que o ciclo se inverta outra vez. Evite fechar uma taxa fixa a 30 anos só porque parece mais segura à primeira vista: os spreads praticados sobem com o prazo da fixação, e a diferença mensal entre uma taxa mista a sete anos e uma fixa total pode ultrapassar os 40 a 60 euros, dependendo do banco.

Há uma exceção que vale a pena ter em conta. Se planeia vender a casa ou mudar de crédito dentro de três a cinco anos — por mudança de cidade ou de emprego, por exemplo —, a taxa fixa deixa de ser vantajosa: resgatar um crédito fixo antes do prazo pode implicar uma comissão de reembolso antecipado de até 0,5% do capital em dívida, um custo que a taxa variável ou mista praticamente não tem.

Como proteger o orçamento se já tem um crédito variável

Quem já paga um crédito habitação com taxa variável tem mais margem de manobra do que costuma pensar, mesmo sem trocar de casa ou de banco.

  • Peça ao seu banco uma revisão do spread — quem tem mais de três anos de contrato e um histórico de pagamentos sem falhas costuma conseguir reduções de 0,1 a 0,3 pontos percentuais só por pedir.
  • Compare propostas noutros bancos através da portabilidade de crédito habitação, um processo que a lei obriga a ser gratuito.
  • Use um simulador como o do Doutor Finanças ou do ComparaJá antes de qualquer decisão — os números mudam todas as semanas e uma simulação desatualizada engana mais do que ajuda.
  • Peça um parecer independente à DECO Proteste se o banco propuser produtos associados ao crédito, como seguros, cartões ou contas com comissão, como condição para manter o spread baixo, entre outras práticas que vale a pena questionar.

Nenhuma destas medidas exige processos judiciais nem meses de espera — a maior parte resolve-se com um telefonema e uma comparação de propostas em papel, à mesa da cozinha.

O que muda para quem tem até 35 anos e compra com garantia do Estado

Quem tem entre 18 e 35 anos e ainda não é proprietário de casa própria pode recorrer à garantia pública do Estado para financiar até 100% do valor do imóvel, sem precisar da entrada inicial de 10% que os bancos costumam exigir nos restantes casos. O Estado atua como fiador junto do banco, cobrindo até 15% do valor da transação, e o Governo reforçou esta garantia em abril de 2026 com mais 750 milhões de euros, elevando o montante total disponível para cerca de 2,3 mil milhões de euros. A procura, no entanto, tem sido elevada: até março de 2026, a garantia pública já tinha consumido cerca de 62% do montante atribuído, e os contratos têm de ser celebrados até 31 de dezembro de 2026 para beneficiar da medida nas condições atuais — não há garantias de que os apoios se mantenham depois disso.

É aqui que a subida da Euribor pesa mais. Financiar 100% do valor da casa significa uma prestação mais alta desde o primeiro mês, e com a Euribor a seis meses em 2,690% e a tendência de subida a manter-se até ao final do ano, um jovem que use a garantia pública para comprar uma casa de 200.000 euros sem entrada paga, à partida, uma prestação mensal mais elevada do que pagaria com os mesmos 20 anos de prazo mas com 10% de entrada. Não vale a pena desistir da garantia por causa disto — continua a ser, para a maioria dos jovens, a única forma de comprar casa sem passar anos a poupar para a entrada —, mas convém simular a prestação com a Euribor a 2,90% ou 3%, não apenas com o valor de hoje, antes de assinar qualquer contrato. Para beneficiar da garantia, o rendimento do agregado em 2025 não pode ter ultrapassado os 83.696 euros anuais, o imóvel não pode custar mais de 450.000 euros, e a medida ainda é acumulável com a isenção de IMT e de Imposto do Selo para jovens até 35 anos.

O que esperar até ao final de 2026

Os analistas de mercado consultados pelos principais comparadores de crédito são unânimes num ponto: as taxas Euribor deverão continuar a subir até ao final de 2026, e só é esperada uma inversão de tendência já em 2027. Esta perspetiva está a travar a procura por crédito habitação em Portugal, que caiu ligeiramente nos últimos meses — uma combinação de preços de casas em máximos e prestações mais caras afasta parte dos compradores que, há um ano, teriam avançado sem hesitar. Para os bancos, o efeito é misto: a subida da Euribor aumenta a margem de juros nos créditos já concedidos, mas o abrandamento da procura por novos empréstimos reduz o volume de negócio. Para quem tem casa própria com crédito variável, o conselho prático mantém-se o mesmo independentemente do que o BCE decidir na próxima reunião: acompanhar a Euribor mensalmente, não esperar pela renovação automática do spread para negociar, e manter uma reserva equivalente a três ou quatro prestações — a almofada que separa uma subida de juros incómoda de um aperto financeiro a sério. O mercado já reage às expectativas antes de qualquer decisão oficial do BCE: basta um discurso mais duro de um membro do conselho de governadores para a Euribor a seis meses subir alguns milésimos numa única sessão. Em Lisboa e no Porto, onde os preços por metro quadrado já estão entre os mais altos da Península Ibérica, este aperto adicional pesa mais do que no interior do país, onde as prestações partem de valores bem mais baixos e a margem de manobra é maior.